Thursday, March 31, 2016

Semana 13:

"Começo a ter consciência de ter consciências.
Talvez amanhã desperte para mim mesmo,
e reate o curso da minha existência própria."

(Bernardo Soares)

Quando Bernardo Soares refere à consciência nesta citação, ele está falando de ser consciente das coisas ao redor da gente. Estas coisas podem ser como objetos físicos, e, além disto, podem ser coisas mais abstratas como sentimentos.

Enquanto eu pensava nesta citação e seu significado, percebi que este negócio de "ter consciência de ter consciências" tem algo a ver com o sentimento de tirar seu aparelho pela primeira vez. Quando, pela primeira vez talvez em anos, a ortodontista tira seu aparelho da boca, sente como se seus dentes fossem novas- cada um como uma pérola: suave, novo e brilhante. Tal como dentes, Soares sempre tinha conscientes, mas nunca percebeu antes. E agora que percebe, abre um novo mundo para ele, um mundo cheio de possibilidades. Pois, "ter consciência de ter consciências" é o primeiro passo para melhor entender nossa "existência própria."



Thursday, March 24, 2016

Semana 12

Pedro Guedes, carregando uma cruz de 50 kg há 7 anos para pagar uma promessa. Foto tirado por Vitor Santana, publicado no site "globo":
http://g1.globo.com/goias/noticia/2015/05/idoso-que-carrega-cruz-de-50-kg-ha-7-anos-esta-60-km-de-pagar-promessa.html

        No drama do Dias Gomes, "O pagador de promessas", o personagem, Zé do burro, carregue uma cruz até a igreja de Santa Bárbara. Quando ele chega à igreja, uma guarda erradamente pensa que ele tinha trazido a cruz para carregar como penitencia na procissão de Santa Bárbara, e referindo-se à cruz, pergunta: “É para a procissão de Santa Bárbara?” (63) Atos de penitencia tal como orar nas escadas de uma igreja ou carregar uma cruz como penitencia numa procissão de uma santa são comuns em Brasil. Contudo, Zé explica para a guarda que ele trouxe a cruz, não como penitencia, mas para cumprir uma promessa que fez para Santa Bárbara depois que seu burro, Nicolau, foi sarado. Embora fotos como esta mostram que, hoje em dia tem gente que carrega uma cruz pela mesma razão que Zé, o fato de que esta foto foi publicada em 2013, muitos anos depois que “O pagador de promessas” foi escrito levanta a questão: a prática de carregar uma cruz como promessa aos santos, ou, neste caso, como penitencia, realmente faz parte da cultura Brasileira, ou virou tradição somente devido ao drama?
("O pagador de promessas", Dias Gomes)

Wednesday, March 16, 2016

Semana 11:
“.... Toda coisa tem pelo menos duas maneiras de ser olhada. Uma de lá pra cá, outra de cá pra lá. Entendeu? [...] É uma questão de sensibilidade”.
 –Bonitão
(“O pagador de promessas”, Dias Gomes)
Quando Zé pergunta para Bonitão por que ele toma o dinheiro da Marli, uma prostituta –dinheiro que ele não trabalhou para ganhar – o Bonitão responde que tem dois lados a cada moeda. Sua resposta é um exemplo do perspectivismo, uma filosofia que afirma que existem múltiplas verdades, ou maneiras de pensar, e que todas elas são corretas de uma forma ou outra. Embora Bonitão não trabalhou para este dinheiro, ele acredita que “sua beleza máscula e se vigor sexual, aliados a um direito natural, justificam plenamente seu modo de vida” (19).
Por outro lado, o Zé não consegue entender as justificações do Bonitão porque Zé tem suas próprias opiniões com respeito à honestidade e respeito para as mulheres. Infelizmente, sua incapacidade de compreender o perspectivo do Bonitão, Zé acaba colocando sua mulher numa situação precária afinal do primeiro quadro. Tal como Zé não entendeu as justificações do Bonitão por ficar com o dinheiro da Marli, ele não entende o duplo sentido do Bonitão quando ele oferece levar Rosa até um hotel, nem percebe o medo que Rosa tem como Bonitão a leva embora.

Wednesday, March 9, 2016

Semana 10:



Quem dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
Quem dera
Que sintas!...
— Não negues,
Não mintas...
— Eu vi!..


("A valsa", Casimiro de Abreu)

O poema, “A valsa”, escrito por Casimiro de Abreu nos permite olhar através dos olhos do narrador, que está assistindo a mulher que ele ama como ela dança com outro homem. Embora o poema nunca explica a natureza do relacionamento entre o narrador e a mulher, a evidência textual sugere que o narrador e a mulher estão envolvidos romanticamente, e que a mulher está agindo de uma forma infiel.
O nível de amor que o narrador sente pela mulher é tal que ele sente dor ao vê-la dançar com outro homem. Embora este desejo do narrador que a mulher sinta “as dores/de amores” poderia ser interpretado como uma admissão que o amor do narrador não é retribuído, ele também pode ser entendido como a queixa de um amante. Pois, se a mulher sentisse o mesmo amor pelo narrador que ele sente para ela, ela provavelmente não teria traído ele.

            Nesta passagem, o narrador enfrenta a mulher, e manda ela que não minta. O tom acusatório do narrador nesta frase indica não só que a mulher fez algo de errado, e que ela está tentando esconder seu erro do narrador. Contudo, esconder sua valsa somente seria necessário se, por dançar com outro homem, a mulher tivesse sido infiel ao narrador.


Thursday, March 3, 2016

Semana 9:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


("Autopsicografia," Fernando Pessoa)


     Eu acho muito interesante este poema escrito por Fernando Pessoa porque ele é um poeta, e neste poema ele define o quê é um poeta. É como se fosse um analise de sua própria psique.  Embora sua dor é real, Pessoa reconhece o fato de que é quase impossível descrever a maioria dos sentimentos profundos, e explica que, por isto, a dor que ele sente e escreve nos seus poemas é fingida, só por ser escrito. Pessoa compara esta dor que ele sente à dor que ele acredita que as pessoas sentem ao ler sua poesia.

     Pessoa emplea algumas figuras de linguagem neste poema, tal como a elipse e a metáfora. A elipse permite que o autor omita palavras do poema que podem ser subentendidas. Por exemplo, a frase "O poeta é um fingidor/Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor," tem duas elipses- uma onde omite a palavra "ele" antes do verbo "finge," e outra vez antes do verbo "chega." A metáfora é uma forma original de descrever algo, geralmente usando duas coisas que usualmente não são relacionados. Neste poema, Pessoa compara o coração à um "comboio de corda.

Thursday, February 25, 2016



Semana 8:

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

(“Epílogos,” Gregório de Mattos)

Este poema escrito por Gregório de Mattos demonstra o desencanto que ele sentia em relação a vários aspectos da cidade onde morava. Em seu poema, ele expõe a corrupção do governo, os militares, e da igreja. É interessante notar que este desencanto que Gregório de Mattos sentia pode ser expressado em várias maneiras. Em nossa discussão na aula de seu poema na quarta-feira, ouvimos várias interpretações do poema de Mattos por vários artistas diferentes. Um dos artistas, um rapper chamado "Rappin 'Hood", apareceu usar as palavras de Mattos como uma chamada à ação. O tom de sua voz, a pesada batida da música tocando no fundo, e a velocidade com que ele leu o poema sugere que seu objetivo era inspirar o público a ação.


No entanto, no outro vídeo que ouvimos, o tom da artista era mais triste e quase sem esperança. Ao invés de uma chamada à ação, sua leitura do poema aparece ser um símbolo do desespero que Mattos expressa em seu poema.



O fato de que o mesmo poema pode ser interpretado em duas formas tão diferentes demonstra a idéia de que os leitores são os que fazem importante um trabalho escrito. Embora o autor tem algo a dizer na mensagem do seu trabalho, é o leitor que decide quais partes desta mensagem ele vai aceitar e aplicar na sua vida. Sem leitores para interpretá-lo, um texto - seja ele um livro, poema ou crônica – já não tem sentido.

Thursday, February 18, 2016

Semana 7:


Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
           É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

("Ser poeta," Florbela Espanca)


Achei interesante todas as figuras de linguagem que Florbela Espanca usa em seu poema, "Ser poeta," e também como ela as usa para apoiar a idea principal de seu poema: que um poeta tem o poder de sentir e fazer com que outras pessoas sentirem uma variedade enorme de sentimentos.  Espanca usa reiteração para enfatizar que o trabalho de um poeta é complicado e multifacetado, y que ao escrever poesia, o poeta sente múltiplas emoções diferentes. Espanca também usa varios hipérboles, como "É ter cá dentro um astro que flameja/É ter garras e asas de condor!" Embora a autora não tem asas, nem tem chamas no seu peito, estas exagerações implicam aos leitores a profundidade de seus sentimentos. O uso de polissíndeto na frase, seres alma, e sangue, e vida em mim," mostra a conexão entre as ideas da Espanca, e enfatizan seu significado como a afirmação final da autora de que escrever poesia faz ela sentir mais viva.

Espanca emplea algumas ferramentas de versificação em seu poema, também. Nas primeras duas estrofas, ela usa rimas cruzadas: ABBA, ABBA. Nas segundas duas estrofas, ela usa rimas alternadas: CDC, EDE. A variação da esquema das rimas em seu poema faz o poema mais interesante para os leitores, e ajuda eles prestar atenção às palavras da poeta do começo ao fim do poema. Um outro aspecto do poema que pega a atenção dos leitores é o uso de rimas ricas, como "beija" e "seja," e rimas raras como  "cetim" e "mim." O uso destas rimas enriquece a linguagem do poema.

Ao todo, este poema é uma boa demonstração de como ferramentas técnicas de linguagem e versificação não inibem a criatividade dos poetas. Ao contrário, estas ferramentas, quando aplicadas corretamente, podem elevar as ideias do poeta e ajuda-lo a comunicar-se numa forma mais coerente e bella.