Thursday, February 25, 2016



Semana 8:

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

(“Epílogos,” Gregório de Mattos)

Este poema escrito por Gregório de Mattos demonstra o desencanto que ele sentia em relação a vários aspectos da cidade onde morava. Em seu poema, ele expõe a corrupção do governo, os militares, e da igreja. É interessante notar que este desencanto que Gregório de Mattos sentia pode ser expressado em várias maneiras. Em nossa discussão na aula de seu poema na quarta-feira, ouvimos várias interpretações do poema de Mattos por vários artistas diferentes. Um dos artistas, um rapper chamado "Rappin 'Hood", apareceu usar as palavras de Mattos como uma chamada à ação. O tom de sua voz, a pesada batida da música tocando no fundo, e a velocidade com que ele leu o poema sugere que seu objetivo era inspirar o público a ação.


No entanto, no outro vídeo que ouvimos, o tom da artista era mais triste e quase sem esperança. Ao invés de uma chamada à ação, sua leitura do poema aparece ser um símbolo do desespero que Mattos expressa em seu poema.



O fato de que o mesmo poema pode ser interpretado em duas formas tão diferentes demonstra a idéia de que os leitores são os que fazem importante um trabalho escrito. Embora o autor tem algo a dizer na mensagem do seu trabalho, é o leitor que decide quais partes desta mensagem ele vai aceitar e aplicar na sua vida. Sem leitores para interpretá-lo, um texto - seja ele um livro, poema ou crônica – já não tem sentido.

Thursday, February 18, 2016

Semana 7:


Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
           É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

("Ser poeta," Florbela Espanca)


Achei interesante todas as figuras de linguagem que Florbela Espanca usa em seu poema, "Ser poeta," e também como ela as usa para apoiar a idea principal de seu poema: que um poeta tem o poder de sentir e fazer com que outras pessoas sentirem uma variedade enorme de sentimentos.  Espanca usa reiteração para enfatizar que o trabalho de um poeta é complicado e multifacetado, y que ao escrever poesia, o poeta sente múltiplas emoções diferentes. Espanca também usa varios hipérboles, como "É ter cá dentro um astro que flameja/É ter garras e asas de condor!" Embora a autora não tem asas, nem tem chamas no seu peito, estas exagerações implicam aos leitores a profundidade de seus sentimentos. O uso de polissíndeto na frase, seres alma, e sangue, e vida em mim," mostra a conexão entre as ideas da Espanca, e enfatizan seu significado como a afirmação final da autora de que escrever poesia faz ela sentir mais viva.

Espanca emplea algumas ferramentas de versificação em seu poema, também. Nas primeras duas estrofas, ela usa rimas cruzadas: ABBA, ABBA. Nas segundas duas estrofas, ela usa rimas alternadas: CDC, EDE. A variação da esquema das rimas em seu poema faz o poema mais interesante para os leitores, e ajuda eles prestar atenção às palavras da poeta do começo ao fim do poema. Um outro aspecto do poema que pega a atenção dos leitores é o uso de rimas ricas, como "beija" e "seja," e rimas raras como  "cetim" e "mim." O uso destas rimas enriquece a linguagem do poema.

Ao todo, este poema é uma boa demonstração de como ferramentas técnicas de linguagem e versificação não inibem a criatividade dos poetas. Ao contrário, estas ferramentas, quando aplicadas corretamente, podem elevar as ideias do poeta e ajuda-lo a comunicar-se numa forma mais coerente e bella.

Thursday, February 11, 2016


Semana 6:

“Não desço para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio, minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse homem, a esse correto irmão.”

("Homem no mar", Rubem Braga)



Nesta crônica, o autor, Rubem Braga, expressa um sentimento que todos nós já sabemos por ter sentido antes, embora é um sentimento difícil explicar direito: a empatia.  Eu diria que a empatia é o desejo de ajudar alguém que está sofrendo quando não temos jeito de estar lá com eles fisicamente. Também diria que é a vontade que bate na hora de olhar do ônibus para a rua e ver alguém, um desconhecido, correndo atrás.



- Corra! Pensamos, assistindo calado, enquanto torcemos pela pessoa, Corra, que o motorista não vai esperar!



Meu exemplo não é tão inspirador como o exemplo utilizado na crônica por Sor. Braga (é mais engraçado que nada), mas ambos cheguem à mesma conclusão: nossos sentimentos são ligados, até certo ponto, aos sentimentos das pessoas ao nosso redor. Ao assistir o homem que está nadando no mar, o narrador da crônica sente que a “imagem [daquele] homem [lhe] faz bem” por causa da calma energia e a tranquilidade com que ele avança pelo mar. O narrador sente que está fazendo ele bem porque ele está demonstrando características positivas como determinação e calma, e o narrador (pelo menos enquanto ele assiste) consegue sentir traças destas mesmas características em si. Contudo, o exemplo do ônibus prova que a empatia nem sempre é algo beneficial aos observadores, pois, assim como podemos compartilhar os momentos bons, podemos compartilhar também os momentos ruins. Por isto sentimos pena por aquele cara que perdeu seu ônibus.








Thursday, February 4, 2016

Semana 5:

(José Saramago, "O conto da ilha desconhecida," pag. 3)

Embora seja verdade que o homem do barco esperou por três dias que o rei viesse pessoalmente para falar com ele, também é verdade que esperar deitado não é tão difícil. O pedido do homem do barco foi ousado, mas ao mesmo tempo, não foi ele sozinho que finalmente consegui o barco. Como diz no conto, o rei originalmente tinha respondido não” ao pedido do homem do barco. No entanto, na página tres do conto, descreve como “os [outros] aspirantes à porta das petições […]resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco [...] Nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco.” Se não fosse pelas outras pessoas que estavam esperando para falar com o rei, entre outros espectadores, o homem do barco provavelmente não teria conseguido seu barco porque sua abordagem era passiva demais.


Esta situação no conto também demonstra a reação negativa do rei para o ambiente estressante em que ele foi colocado temporariamente pelo homem do barco. O narrador do conto explica que “perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular […] o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco.” Se ele, como rei, não quis dar um dos seus barcos para o homem do barco, então não era preciso. No entanto, quando o rei foi pressionado por seus súditos, ele cedeu porque foi a coisa mais fácil fazer.