Semana 2:
"Assim por uma ironia da sorte, os bens do
coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei em recusar a herança. Parecia-me
odioso receber um vintém do tal espólio; era pior do que fazer-me esbirro
alugado. Pensei nisso três dias, e esbarrava sempre na consideração de que a
recusa podia fazer desconfiar alguma cousa. No fim dos três dias, assentei num
meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos bocados e às escondidas...
Entrando na posse da herança,
converti-a em títulos e dinheiro. Eram então passados muitos meses, e a idéia
de distribuí-la toda em esmolas e donativos pios não me dominou como da
primeira vez; achei mesmo que era afetação. Restringi o plano primitivo:
distribuí alguma cousa aos pobres, dei à matriz da vila uns paramentos novos,
fiz uma esmola à Santa Casa da Misericórdia, etc.: ao todo trinta e dous
contos. Mandei também levantar um túmulo ao coronel, todo de mármore, obra
de um napolitano, que aqui esteve até 1866, e foi morrer, creio eu, no Paraguai."
(O enfermeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, pages 5,6)
Originalmente Procópio
estava com medo de voltar para a casa
do coronel e
aceitar os bens dele. Ele não somente estava com medo de
que alguém soubesse do assassino, mas também sentia que aceitar o dinheiro do
coronel seria uma desgraça. Contudo, quando Procópio
foi, toda a gente falava mal do coronel e elogiava o Procópio
por sua paciencia e dedicação. Apesar de ter defendido o
coronel dos criticismos dos otros, ele eventualmente admitiu a si mesmo que o
coronel tinha sido um patrão cruel. Isto sendo sua justificação, Procópio
acabou por doar somente um poco do dinheiro para caridades, e ficar com o que
restava.
Um homem realmente culpado não teria sido capaz disto.
Se Procópio fosse uma pessoa deshonroso, ele teria aceitado o dinheiro e então não teria dado nada para os necesitados. Se ele tivesse matado o coronel de sangue
fria, ele com certeza não teria levantado um túmulo ao coronel com o dinheiro
que ele deixou. Ao ler o conto pela primeira vez, eu achei Procópio culpado e egoísta, mas se Procópio não fosse um bom enfermeiro, e se
o coronel não tivesse gostado dele, ele não teria possuído nada do
dinheiro do coronel. Talvez, para Procópio, aceitar o dinheiro não aparecia um desgraço porque esta herança que o coronel deixou para ele foi
uma confirmação que ele tinha feito seu melhor para o coronel, e que ele tinha
sido perdoado pelo que fez num momento de desespero.
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