Thursday, January 14, 2016

Semana 2:



    "Assim por uma ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei em recusar a herança. Parecia-me odioso receber um vintém do tal espólio; era pior do que fazer-me esbirro alugado. Pensei nisso três dias, e esbarrava sempre na consideração de que a recusa podia fazer desconfiar alguma cousa. No fim dos três dias, assentei num meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos bocados e às escondidas...

 Entrando na posse da herança, converti-a em títulos e dinheiro. Eram então passados muitos meses, e a idéia de distribuí-la toda em esmolas e donativos pios não me dominou como da primeira vez; achei mesmo que era afetação. Restringi o plano primitivo: distribuí alguma cousa aos pobres, dei à matriz da vila uns paramentos novos, fiz uma esmola à Santa Casa da Misericórdia, etc.: ao todo trinta e dous contos. Mandei também levantar um túmulo ao coronel, todo de mármore, obra de um napolitano, que aqui esteve até 1866, e foi morrer, creio eu, no Paraguai."

(O enfermeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, pages 5,6)





Originalmente Procópio estava com medo de voltar para a casa do coronel e aceitar os bens dele. Ele não somente estava com medo de que alguém soubesse do assassino, mas também sentia que aceitar o dinheiro do coronel seria uma desgraça. Contudo, quando Procópio foi, toda a gente falava mal do coronel e elogiava o Procópio por sua paciencia e dedicação. Apesar de ter defendido o coronel dos criticismos dos otros, ele eventualmente admitiu a si mesmo que o coronel tinha sido um patrão cruel. Isto sendo sua justificação, Procópio acabou por doar somente um poco do dinheiro  para caridades, e ficar com o que restava.

Um homem realmente culpado não teria sido capaz disto. Se Procópio fosse uma pessoa deshonroso, ele teria aceitado o dinheiro e então não teria dado nada para os necesitados. Se ele tivesse matado o coronel de sangue fria, ele com certeza não teria levantado um túmulo ao coronel com o dinheiro que ele deixou. Ao ler o conto pela primeira vez, eu achei Procópio culpado e egoísta, mas se Procópio não fosse um bom enfermeiro, e se o coronel não tivesse gostado dele, ele não teria possuído nada do dinheiro do coronel. Talvez, para Procópio, aceitar o dinheiro não aparecia um desgraço porque esta herança que o coronel deixou para ele foi uma confirmação que ele tinha feito seu melhor para o coronel, e que ele tinha sido perdoado pelo que fez num momento de desespero.


No comments:

Post a Comment